Ensino
Postado em: 12/04/2021
Depressão na adolescência

Depressão na adolescência: como identificar e tratar?

Entrevista com Priscila Lehn, psicóloga e gerente de inovação da Escola da Inteligência.

Silenciosa ou barulhenta. A depressão pode se manifestar de diferentes formas e em qualquer idade. Mas algo é comum: nunca é fácil enfrentá-la. Na adolescência, período da vida em que sentimos tudo intensamente, a atenção precisa ser redobrada. Precisamos considerar o tempo e o grau de sofrimento dos adolescentes para evitar a tendência de banalizar ou subestimar o que eles sentem.

Para explicar mais esse assunto, conversamos com a psicóloga Priscila Lehn, gerente de inovação na Escola da Inteligência, parceira do Sistema Positivo d e Ensino. Confira abaixo a entrevista na íntegra!

1. Quais são os primeiros sinais ou sintomas da depressão na adolescência?

Os sinais e sintomas variam entre os adolescentes, um deles é o isolamento. Alguns jovens já são mais retraídos, assim, podemos observar se há variações do comportamento deles, ou seja, se estão mais retraídos, querendo ficar no quarto, sozinhos, evitando sair ou encontrar amigos. O adolescente já tem uma fama de sentir tudo intensamente, portanto, deve-se considerar o grau de sofrimento e o tempo que isso dura, pois existe uma tendência de banalizar ou subestimar o que estão sentindo. Irritabilidade também é um sinal, assim como tristeza, choro, baixa autoestima, sensações de vazio ou inutilidade. Também é comum alterações de humor e no peso. Tudo deve ser observado dentro de um contexto do que é característico daquele jovem.

2. Quais são as causas da depressão na adolescência? Elas estão mais ligadas a esse momento da vida?

As causas são diversas, podendo estar ligadas a questões físicas como distúrbios hormonais, a questões hereditárias, como histórico familiar de depressão, uso de drogas, ou questões psicológicas como sexualidade, conflitos em casa, bullying, pressão do vestibular e dos estudos, ou situações de estresse intenso. A depressão atinge desde crianças a adultos, mas existem algumas questões dessa fase como a intensidade emocional e a dificuldade de lidar com pressões que podem estar mais intimamente relacionadas com a depressão na adolescência.

3. Como é realizado o tratamento para a depressão na adolescência?

Tudo sempre tem que ser avaliado caso a caso e por especialistas. Mas em geral o recomendado é o acompanhamento tanto do psiquiatra, que pode avaliar as medicações pertinentes ao caso, na quantidade e tempo necessários, quanto a psicoterapia, que permitirá que o jovem compreenda melhor o que está acontecendo com ele, entenda suas emoções e busque estratégias para se sentir melhor.

4. Qual é o papel da família no apoio ao adolescente?

O papel da família é fundamental tanto na identificação da condição quanto no manejo da situação. Existe um limiar entre o que pode ser característico de uma fase de transição como a adolescência e o que é mesmo uma depressão. Por isso, a família precisa buscar estar sempre próxima, aberta ao diálogo, atenta a mudanças de comportamento e buscar o diagnóstico e ajuda profissional quando estiver em dúvida. Se a condição não é percebida no início ou se a família não consegue enxergar a gravidade da situação, o caso pode ir ficando mais sério e mais difícil de tratar. Durante a tratamento, o suporte da família é fundamental, mostrando ao jovem que ele é parte importante daquele grupo, acolher seu sofrimento, mas sem superproteger, pois pode gerar mais angústia. O apoio dos amigos também um grande fator protetor, auxiliando na recuperação.

5. E da escola?

A escola também tem um papel importante na identificação, podendo notar comportamentos diferentes do jovem, conversando com a família e proporcionando um ambiente acolhedor para as necessidades do aluno frente às especificidades do seu caso. A escola pode também promover o diálogo com os colegas do aluno ou até mesmo agir preventivamente aos casos, proporcionando espaços de conversa em que os jovens percebam a importância da empatia e do acolhimento uns com os outros. Inclusive, no nosso Programa Escola da Inteligência temos em nosso Portal Inteligência Jovem vídeos para alunos e aulas para os professores tratarem a temática em sala de aula. A partir dessa aplicação recebemos muitos relatos de alunos que se identificaram e resolveram pedir ajuda para os professores e para a família.

6. A doença tem aumentado nos últimos anos? Por quê?

Sim, diversos estudos nacionais e internacionais têm apontado para o aumento da incidência da depressão, não somente nos jovens, nas últimas décadas. Em relação aos adolescentes, existem muitos fatores que estão associados, por conta de toda a mudança social e tecnológica que estamos vivendo. Posso citar alguns exemplos que têm sido levantados como possíveis fatores associados a esse aumento como estresse e pressões do cotidiano, aumento da negligência parental, além de maiores dificuldades em tolerar frustrações.

7. Podemos correlacionar a pandemia com o aumento de casos?

Sim. Estudos realizados durante a pandemia verificaram um aumento nos sintomas depressivos, além de encontrarmos também aumento no número de atendimentos do sistema de saúde relacionados a esses quadros. O isolamento social, o medo de contrair a doença e pressões financeiras que a família esteja passando ou tenha passado são grandes fatores de estresse que podem ter contribuído para o aumento de casos.

8. Como lidar com a depressão em um contexto de isolamento?

O contexto atual exige cuidado e atenção redobrados da família. A situação da pandemia em si já envolve um certo isolamento físico, então a identificação dos sintomas pode ficar mais difícil. Tendo já o diagnóstico, é importante buscar e manter o tratamento na medida do que for possível, utilizando estratégias como as consultas online. Manter um diálogo aberto com o jovem, abrindo espaço para que ele compartilhe suas inseguranças, seus medos e suas emoções é essencial. Proporcionar momentos de contato com amigos, mesmo que virtualmente também pode colaborar. E, por mais que o ambiente possa estar restrito, a família também deve incentivar atividades de lazer e a prática de esportes, visando um aumento do bem-estar. Além de tudo isso, uma questão importante que nem sempre é levantada é a necessidade da família estar atenta às suas próprias necessidades emocionais e cuidar de si. Assim, terão melhores condições de ajudar os jovens.

9. A relação do jovem com o digital atrapalha ou ajuda?

Muitos veem a internet, as redes sociais e os jogos como grandes vilões, porém tudo depende do uso que está sendo feito, do tempo investido nestas atividades e como o jovem se sente diante desses recursos. O digital pode atrapalhar sim quando utilizado em excesso, quando não deixa espaço para a interiorização e autoconhecimento, quando gera preconceitos, radicalismos e conflitos ou quando o jovem substitui a companhia dos amigos pela companhia da internet. Contudo, hoje a internet também fornece muita informação, entretenimento, cursos, técnicas, conhecimento e troca de experiências que o jovem pode utilizar para prevenir e até mesmo para ajudar na superação da depressão. Diante dessas possibilidades, a atenção da família e a abertura ao diálogo permitem a identificação de comportamentos não saudáveis e a construção conjunta de estratégias para melhorar o relacionamento do jovem com o meio digital.

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