Ensino
Postado em: 02/06/2021
Adriana Foz é especialista em Habilidades Socioemocionais

As Habilidades Socioemocionais para uma boa saúde mental: entrevista com Adriana Fóz

Entenda por que as Habilidades Socioemocionais são fundamentais para a escola e o futuro dos alunos

Adriana Fóz é pesquisadora, professora, palestrante, escritora ligada à área de Neuropsicologia e Psicopedagogia e tem presença confirmada no evento Dia Positivo. Referência nacional em Educação Socioemocional e Neurociência Educacional, trabalha para levar esses conceitos para dentro das escolas, fazendo pais, professores e alunos dialogarem sobre o processo de desenvolvimento cognitivo e emocional dos jovens. 

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), aprovada em 2017, incluiu as competências socioemocionais como parte dos conteúdos a serem trabalhados em sala de aula. Isso significa que, além do crescimento intelectual, o crescimento pessoal e emocional deve estar no foco dos professores, da Educação Infantil ao Ensino Médio. E, com o Ensino Híbrido e o Novo Ensino Médio, as discussões sobre saúde mental e bem-estar estão mais relevantes do que nunca. 

Perguntas sobre Habilidades Socioemocionais para Adriana Fóz 

Por que trazer a Aprendizagem Socioemocional para dentro da escola e não apenas deixá-la no âmbito familiar?

A Aprendizagem Socioemocional é um trabalho que vem sendo pesquisado há muito tempo. Nos Estados Unidos, isso já tem mais de 30 anos e, com a pandemia, o tema acabou sendo ainda mais visado. 

A autogestão e o autoconhecimento fazem parte de todo aprendizado eficiente. Só que agora, com as consequências da própria pandemia, as emoções estão mais à flor da pele e emoções como a raiva e o medo acabam assolando muitos – não só nós adultos, mas as crianças também. Conversar com elas sobre isso se faz muito mais necessário, já que os sentimentos impactam profundamente nossa vida e nosso aprendizado.

Hoje, conseguimos falar bastante sobre saúde mental e Habilidades Socioemocionais dentro das escolas, mas, há alguns anos, não havia esse espaço em muitos lugares. O que mudou? 

Eu acho que é a própria necessidade. Ficaram claras as dificuldades emergentes dos aspectos emocionais e mentais na pandemia, fazendo com que percebêssemos que somos seres emocionais. E hoje, com a ajuda da neurociência – comprovando e mostrando evidências muito robustas e já muito consolidadas de que a emoção faz parte de todo e qualquer ser humano –, percebe-se que os sentimentos são muito úteis para a nossa auto-regulação e para todas as conquistas que realizamos. A emoção é como se fosse a conexão entre o cérebro e o corpo, e aprender a lidar com ela nos permite ter um bem-estar físico, emocional e mental.

Você acredita que os soft skills e as Habilidades Socioemocionais serão um grande fator para um profissional ser bem qualificado no futuro?

Não tenho a menor dúvida. Com certeza os indivíduos que tiverem essas habilidades vão ter muito mais condições no mercado de trabalho, se sairão melhor nos seus relacionamentos e, sobretudo, terão uma boa saúde mental. A Aprendizagem Socioemocional é fundamental na vida de um estudante e também de um professor, dos pais e também de todos.

Se o professor não apresenta as Habilidades Socioemocionais, se ele não tem essa competência, é mais difícil passar isso para os alunos. Ele não se torna um modelo para o estudante. O que a gente também já sabe é que o professor é um modelo muito importante para o aprendizado, tanto em termos socioemocionais como em termos cognitivos. Além disso, não só os alunos e professores, mas o mercado de trabalho também precisa cultivar essas qualidades para que se tenha impactos positivos na carreira e na vida do indivíduo que as desempenha. 

Dentro do contexto de pandemia, acaba acontecendo de a escola abrir para as aulas presenciais e, logo em seguida, fechar novamente por conta de novos decretos, mudando constantemente a rotina de muitas crianças e suas famílias. Como lidar com isso?

A verdade é  que hoje, mais do que nunca, a gente tem a certeza do quanto as famílias fazem parte da educação dos filhos. Então, eu acho que um lado positivo que a pandemia trouxe é, por incrível que pareça, deixar evidente que a educação é também uma parceria das escolas com as famílias.

Os pais também têm que ser mais tolerantes e bastante parceiros, ter uma maior empatia. Temos muito mais chances de ter sucesso nas nossas atividades se a família está presente na aprendizagem escolar. A gente não pode nunca esquecer que são duas educações. A escola não substitui a família e vice-versa. Mas, ambas são fundamentais para o desenvolvimento integral e saudável dos jovens, das crianças e adolescentes.

Na sua visão, quais são as maiores dificuldades com que as crianças e os adolescentes estão lidando na pandemia?

A criança, do ponto de vista prático e concreto, está perdendo muito. Ela precisa vivenciar e experimentar, o que é difícil na situação atual. Por meio de um computador, a criança tem mais dificuldade em, por exemplo, aprender a ler ou escrever, a desenvolver a parte auditiva, enfim, todo o repertório e vivência que a experiência não virtual traz. Os adolescentes também têm uma perda significativa, pois estão no auge de seu potencial cerebral e precisam de muitas conexões com outros jovens. São perdas bastante importantes, tanto para as crianças quanto para os adolescentes.

Agora, o mais importante é trabalhar aspectos que são acessíveis para que menos perdas aconteçam. Então, tenho orientado tanto os pais quanto as escolas para trabalharmos em conjunto, priorizando o que importa e se não pudermos fazer desse jeito, podemos tentar de outro.

Como as escolas podem ensinar Habilidades Socioemocionais?

A primeira coisa é a formação dos profissionais. A formação continuada dos professores é muito importante, porque eles podem não só desenvolver as habilidades neles mesmos, mas também nos seus alunos. Uma outra dica é que as escolas e pais precisam entender que não basta apenas uma aula de Habilidades Socioemocionais para que isso aconteça. Essas habilidades têm que fazer parte de todas as disciplinas, pois, seja em História, Física ou Matemática, há como criar situações em que a tomada de decisão responsável faz parte do aprendizado, em que a empatia é necessária e o autoconhecimento é importante.

Saiba mais

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