Gestão Escolar
Postado em: 21/06/2021
Eduardo Deschamps

Entrevista com Eduardo Deschamps: Como entender o Novo Ensino Médio

No Dia Positivo 2021, evento realizado anualmente para os gestores das escolas conveniadas, um de nossos convidados especiais foi o professor Eduardo Deschamps. Docente na Universidade Regional de Blumenau, com MBA em Liderança e Gestão Pública, ele é membro do Conselho Estadual de Educação de Santa Catarina, ex-presidente do Conselho Nacional de Educação (2016-2018) e presidiu as comissões do Sistema Nacional do Ensino Médio e da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

No evento, Eduardo Deschamps compartilhou sua experiência no envolvimento com a criação da nova proposta, além de apresentar referências de Ensino Médio pelo mundo. O Novo Ensino Médio tem sido um dos principais assuntos no universo educacional brasileiro atual. A proposta representa a maior mudança na educação do país nos últimos 20 anos e, como não poderia deixar de ser, tem mobilizado escolas, que já iniciaram a implantação e têm até março de 2022 para se adequar ao novo modelo. Para auxiliar ainda mais as escolas em processo de adaptação, fizemos uma entrevista exclusiva com o especialista, que traz dicas valiosas. Confira abaixo!

Quais dicas você tem para as escolas que estão com dificuldades na implementação do Novo Ensino Médio? A que elas precisam ficar atentas neste momento de transição?

Eduardo Deschamps Eu não posso pensar o Novo Ensino Médio com a cabeça e o modelo mental do antigo. Porque é uma mudança muito forte. A primeira coisa que precisamos entender é que, até agora, no Ensino Médio, o aluno que pretendia fazer Medicina estudava a mesma Física e Matemática que um aluno que optasse por engenharia. E o aluno da Engenharia estudava a mesma Biologia que o aluno de Medicina. Isso fazia do nosso Ensino Médio muito superficial e muito fragmentado. Então, há uma série de conceitos novos que chegam e eu preciso mudar muito o mindset com que encaro ele. O primeiro deles é que vamos ter uma parte em que preparamos para as aprendizagens essenciais, que é a Formação Geral Básica, e uma outra parte, os Itinerários Formativos, que prepara para as carreiras profissionais que o aluno quer seguir. Então, quem quiser fazer cursos na área da Saúde vai estudar mais Biologia e quem quer fazer Engenharia vai estudar mais Física e Matemática. Por isso, é preciso ter claro oque são os conteúdos estruturantes, que todos devem saber, e o que vai ser importante na preparação profissional. 

O segundo ponto é que temos que sair da lógica do conteúdo e ir para a lógica do desenvolvimento de competências, que é a capacidade de desenvolver habilidades, atitudes, valores e conhecimentos para a resolução de problemas. Portanto, a estruturação do Ensino Médio tem que ser muito focada em PBL (Problem Based  Learning) e em projetos. Essas são as duas grandes mudanças que significam uma alteração na maneira  de pensar o Ensino Médio e que, às vezes, apresentam algumas dificuldades para determinadas escolas ao fazer o desenho de seus currículos. À medida que elas começam a compreender isso, fica mais fácil tentar organizar a questão curricular, e muitas das escolas vão se dar conta de que já trabalham assim nas atividades  extracurriculares que oferecem. Porque naquilo que excede o currículo, muitas instituições são inovadoras. E essa é a inovação que a gente quer trazer para dentro do currículo.

“Temos que sair da lógica do conteúdo e ir para a lógica do desenvolvimento de competências.”

É importante investir na formação de professores para auxiliar nessa mudança?

Eduardo Deschamps Sempre, independentemente de ser uma mudança curricular. Quando mudamos o currículo, mudamos a forma e o “produto” que oferecemos. Se eu mudei o serviço, tenho que mudar toda a cadeia interna que passa pelo principal ativo da escola, que é o professor. Ele é o principal elemento que vai fazer com que o projeto pedagógico da escola possa ser bem executado. Obviamente com todo o entorno que é preciso criar, incluindo estrutura, uso de tecnologia e material didático. Uma vez desenhado o currículo, o principal ponto é a formação dos professores para este novo modelo. Porque muitos professores, na sua formação inicial, não foram preparados para trabalhar de forma integrada, com desenvolvimento de competências e habilidades e a interdisciplinaridade. É preciso um vínculo maior do professor com a escola. 

Para as escolas que estão se preparando agora, quais são os pontos principais que devem ser revisitados? 

Eduardo Deschamps Quase tudo, do ponto de vista de currículo. Mas isso pode ser feito com um certo cuidado e com modelos de transição. Eu não preciso entrar já na 1ª série com muita mudança. É possível começar com uma carga maior na Formação Geral Básica, colocando Projeto de Vida e algumas eletivas, que são pequenas escolhas que o aluno faz. Isso não é uma mudança tão radical para a 1ª série. E, a partir do 2º ano, ir para a parte mais pesada dos Itinerários Formativos, que é onde se tem que fazer mais mudanças. Observar o que as redes públicas estão fazendo, pois já temos 20 delas com currículos elaborados e em discussão nos conselhos, e olhar para as boas experiências e modelos vai ajudar muito as escolas a se sentirem mais confortáveis. Além disso, quando sair a nova matriz do Enem, vai ser muito mais tranquilo fazer as adaptações de currículo. É um processo gradativo: ninguém precisa sair com os três anos do Ensino Médio prontos ano que vem.

Com esta reformulação, o Ensino Médio no Brasil começa a se aproximar do Ensino Médio em outros países? 

Eduardo Deschamps Sim, de maneira geral. O Ensino Médio em outros países é muito diverso, não existe um padrão. Mas o que existe é um pouco isso: o Ensino Médio dividido em duas grandes partes. Uma delas de aprendizagens essenciais e a outra a parte de aprofundamento, na qual o estudante começa a fazer algumas escolhas a partir daquilo que quer, para que os alunos não fiquem estudando a mesma coisa, até porque as juventudes são diversas. O Projeto de Vida tem um pouco desse objetivo: primeiro o autoconhecimento do aluno, ele precisa se conhecer e saber como ele é, quais são seus pontos fortes e fracos e o que o direciona para determinada carreira ou não.

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